Relacionamentos abusivos: você é vítima?

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Relacionamentos abusivos: você é vítima?

É muito comum nos depararmos com relacionamentos abusivos, principalmente, na sociedade machista na qual estamos inseridas.

Essa situação (foto acima) foi muito bem retratada no filme “À meia-luz”, de George Cukor. O filme conta a história de uma mulher (Ingrid Bergman) que sofre abuso psicológico do seu marido (Charles Boyer), que a faz acreditar que está ficando louca. (Foto: United Archives/Getty Images)

Bom mesmo seria se isso não fosse tão banalizado e considerado normal, perante aos olhos dos próprios envolvidos. Mas infelizmente, essa é uma realidade que precisamos combater.

Embora os relacionamentos abusivos aconteçam com ambos os gêneros, vamos considerar a mulher como a maior vítima, já que os números não mentem.

Relacionamentos abusivos: entenda o seu conceito

Caracterizado como uma maneira egoísta de se relacionar, os relacionamentos abusivos ocorrem cada vez mais cedo. E o pior, as vítimas se culpam e se afundam em um buraco ainda mais fundo.

Basta uma opinião contrária ou uma discussão sobre algo não agradável dentro do relacionamento, para que o agressor entre em ação. Ele é capaz de colocá-la, rapidamente, em posição de insanidade, mediante a confusão de todo aquele contexto. Dessa forma, ela se encolhe perante à superioridade do cônjuge.

Relacionamentos abusivos, um assunto bastante complexo e levado pouco a sério. A psicóloga Marnene Soares nos esclarece sobre as melhores maneiras de estar atenta a esse tipo de problema vicioso. Confira:

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Marnene Soares é especialista em Psicologia Clínica/Gestalt-Terapia, pelo ITGT/PUCGO. Psicóloga Clínica e Facilitadora de Oficinas de Ecopsicologia e de Círculo do Sagrado Feminino.

Aurélia Guilherme – Quando relacionamentos abusivos ficam caracterizado?

Marnene Soares – Em relacionamentos abusivos, percebe-se o jogo de controle na relação. São comuns manipulação, ciúmes, violência, indiferença emocional, abusos verbal, físico, psicológico e/ou sexual.

De uma forma geral, atitudes que denotam poder sobre o outro, com a finalidade de obter vantagens e satisfazer desejos.

Contudo, para falar sobre relacionamentos abusivos é essencial considerar que se trata de um assunto imbuído de complexidades. Há uma coexistência de comportamentos e atitudes.

Há, até mesmo, a falta de atitudes conscientes e inconscientes, que se manifestam de modo entrelaçado e interligado. São os “nós” na relação.

Assim, para discorrer sobre relacionamentos abusivos, é necessário ampliar o olhar. Vamos incluir, nesse contexto, as dimensões subjetivas e as relevâncias sociais, históricas e culturais inerentes.

Há muitos comportamentos abusivos nas relações, que estão amparados em uma visão de normalidade de uma sociedade e/ou de cultura. Enquanto em determinada cultura um relacionamento é considerado abusivo, em outra essa configuração não condiz com o mesmo significado.

 

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Aurélia Guilherme – Quando um parceiro se vê completamente dependente do outro, de forma doentia e obsessiva, qual atitude tomar?

Marnene Soares – A princípio, vejo como fundamental, a compreensão do verdadeiro sentido do comportamento de dependência emocional em um relacionamento.

Faz-se as perguntas: Para que serve? Por qual motivo? Como é essa dependência?

Acredito que essa compreensão implica em autoconhecimento, em conhecimento das particularidades e em uma melhor consciência da situação de dependência. Isso pode promover um fortalecimento perante atitudes mais assertivas e saudáveis.

Consequentemente, há um maior amadurecimento no relacionamento. Ressalto que a dependência é uma responsabilidade dos pares, ou seja, do sujeito dependente e do sujeito manipulador.

Aurélia Guilherme – Por que as pessoas sentem dificuldades em ser autênticas dentro de um relacionamento?

Marnene Soares – Entendo que há vários fatores ligados a isso. Existem fragilidades psicoemocionais, que dificultam as pessoas de serem elas mesmas em uma relação. Inclusive, a nossa cultura social valoriza ao extremo as atitudes tidas, como “boazinhas”. Reforça-se a formação de conceitos e modos a serem padronizados e programados, cultuados, como “aceitos socialmente”.

Porém, é um modo de ser distanciado da experiência subjetiva pessoal. Essa condição produz um não reconhecimento de si mesma, o afastamento das singularidades e o empobrecimento do autoconceito. Esse distanciamento também leva à dificuldade em assumir a responsabilidade pelo que é, por aquilo que faz e acredita. Tudo isso pode gerar culpas e menos valia na relação.

Aurélia Guilherme – Na maioria dos relacionamentos abusivos, a vítima é a mulher. De que maneira ela pode se empoderar para um relacionamento saudável? O que ela deve fazer para não se tornar apenas uma reprodução automática de mulher ideal para o seu parceiro?

Marnene Soares – Em nossa sociedade, há milhares de anos, sustenta-se uma visão de mundo embasada em valores do patriarcado. Preconiza-se a ideia de que os atributos do masculino são mais importantes e fortes. E ainda o consideram base-modelo para as ações de sociedade.

Por outro lado, as características e sabedorias do feminino foram entendidas como frágeis. Assim, foram reprimidas e abafadas. Nesta ótica, surgiu o mito de que as mulheres seriam socialmente inferiores, menos inteligentes, desprovidas de conhecimento. Sua existência, passou a ter a função de servir o homem.

Nos últimos tempos, a mulher buscou superar essas desigualdades. Contudo, penso que, a princípio, foi de um modo disfuncional. Entendo que não seja por meio de atitudes competitivas que essa realidade será superada. As manifestações de competição e as guerras entre os sexos, afastam e fragilizam, ainda mais, a mulher da sua essência.

A sabedoria feminina é constituída por poderes de cooperação, sensibilidade, ternura e fertilidade. O masculino e o feminino são opostos. Mas isso não significa ser diferente para menos ou para mais, são apenas opostos e complementares. São igualmente importantes para dinâmica saudável da humanidade.

O empoderamento da mulher, apesar dos grandes desafios a serem enfrentados neste modelo de sociedade patriarcal, é possível.

A mulher precisa retirar-se do papel de SER vítima, de ser ideal para o masculino, de competir para ser igual. A busca deve ser voltada para resgatar as suas singularidades, inerentes à sua própria essência feminina.

Basta assumir a sabedoria e os poderes do SER feminino.

 

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“Manipulação, ciúmes, violência, indiferença emocional, abusos verbal, físico, psicológico e/ou sexual. De uma forma geral, atitudes que denotam poder sobre o outro, com a finalidade de obter vantagens e satisfazer desejos”

Aurélia Guilherme – Por que muitas pessoas ainda têm tanta dificuldade em dizer “não” para o que não lhe faz bem?

Marnene Soares – Utilizo a concepção de não fazer julgamentos isolados de um comportamento. Me baseio em uma compreensão mais ampliada da complexidade da subjetividade humana. Para compreender a dificuldade de uma pessoa em dizer “não”, talvez seja muito importante ter um olhar clínico mais afinado. Deve-se ter o intuito de aprofundar a compreensão das particularidades subjetivas, inerentes ao comportamento de cada pessoa.

Contudo, numa visão mais generalizada, pode-se entender que esta referida dificuldade de dizer “não”, está sustentada em fragilidades psicológicas. São entraves em assumir a responsabilidade pelo o que se é, pelo o que acredita e pela vida. Há um temor de não ser aceito.

Talvez, um medo de “perder” o outro. Pode ser a dificuldade em enfrentar os conflitos para não magoar. Muitas pessoas não sabem o que querem. Pode ser por aí. Temos a cultura do agradar, tão cultuada como assertiva, em nossa sociedade.

Aurélia Guilherme – O ciúme pode ser considerado natural e apenas o seu excesso ser considerado abusivo?

Marnene Soares – O ciúme significa um sinal de insegurança, posse, dominação e controle. Contudo, a intensidade como é manifestada uma atitude ciumenta faz toda a diferença. Se for expressa com um repertório criativo, cogitando cuidado, zelo, o dizer “você é importante”, poderá ser bacana no relacionamento.

Mas se for expresso com atitudes desequilibradas, prejudiciais, de modo excessivo e fora de limites saudáveis, esse ciúme requer cuidados. Porque, nestes casos, há uma concretização de adoecimento psíquico do relacionamento.

Aurélia Guilherme – Que sinais nos apontam uma manipulação emocional?

Marnene Soares – A chantagem ou manipulação emocional caracteriza-se como um recurso disfuncional e prejudicial. Uma pessoa manipuladora utiliza-se deste recurso para levar o outro (vítima) a satisfazer os seus objetivos e desejos. Existem vários sinais que apontam a chantagem emocional num relacionamento.

Pode vir na forma de pressão ou ameaça. Pode-se também instigar um sentimento de culpa na vítima. Existem as distorções e omissão da realidade. Os presentes, os elogios ou as promessas, são muitas as maneiras de manipulação do outro.

Ressalto que uma pessoa manipuladora, por mais que pareça ser alguém firme e seguro, na verdade, é frágil emocionalmente. Ela é insegura e insatisfeita. Joga com o outro, não acredita no seu próprio potencial e, muito menos, nos seus recursos criativos funcionais e saudáveis.

Por outro lado, é bom advertir que a vítima não tem só perdas em uma relação dessa natureza. Muitas vezes, ela se mantém numa relação abusiva, por seus ganhos secundários, sutis e encobertos, mesmo que de maneira inconsciente.

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Aurélia Guilherme – Dentro de um relacionamento, quem se encontra na posição de superioridade sofre de algum distúrbio?

Marnene Soares – Quem se coloca numa posição de superioridade num relacionamento pode ter um adoecimento psíquico. Essa pessoa precisa se auto-afirmar e sentir-se superior, para compensar a sua inferioridade interna.

Essa situação de se sentir superior pode incidir no relacionamento, tanto no homem, como na mulher. Na sociedade contemporânea, imperam os atributos do patriarcal que preconiza os predicados do masculino e abafa as habilidades do feminino.

Isso resulta em uma maior tendência do masculino, “o macho” sentir-se superior no relacionamento.

Muitas vezes, a vítima se mantém em uma relação abusiva, por seus ganhos secundários, sutis e encobertos. Isso pode ocorrer de maneira inconsciente.

Aurélia Guilherme – Uma das grandes estratégias do agressor é colocar a vítima como “louca” e realmente fazê-la acreditar nisso. Qual a melhor maneira de sair dessa situação?

Marnene Soares – O manipulador/agressor, seja ele o homem ou a mulher, tem o intuito de desestabilizar e de desequilibrar o outro emocionalmente. Usa de recursos diversos “de baixo nível”, para deixar o outro frágil. Assim, conquista-se a realização de seus objetivos e desejos.

Sair de um redemoinho de manipulações existentes em um relacionamento é bastante complexo. Desatar esse nó entre agressor e vítima evidencia o fato de que há uma força que atrai manipulador e vítima.

É essencial buscar reflexão, auto-análise ou acompanhamento psicoterapêutico, no sentido de ampliar a consciência da dinâmica existente na relação.

Compreender os conteúdos internos oferece abertura para tal relacionamento. Assim como ter conhecimento do contexto sócio-histórico-cultural em que estão inseridos. Entendo que empoderamento seja para os pares, agressor/vítima.

Mas eles precisam estar abertos a esse tratamento. Ambos precisam se potencializar com repertórios saudáveis, para melhor instituir um relacionamento dinâmico. Essa relação deverá ser baseada no compartilhamento de sentimento mútuo de encontro, de potencialidade, de possibilidade e de amor.

Exclui-se aí, a aproximação para compensar as faltas, as insatisfações e as fragilidades pessoais. Somente quando uma pessoa se compreende como um sujeito singular, capaz de enfrentar e entender as suas dualidades (fragilidades/potenciais; solidão/liberdade) como condições inerentes à existência, terá êxito em estar com o outro.

Eles devem se amar sem cobranças, apegos, manipulações e submissões. Assim, vivencia-se uma dinâmica contínua, de formar laços e descalços para novos laços, na beleza de estar juntos.

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